terça-feira, 7 de novembro de 2017

Tempo de...





E há tempo para tudo
O tempo de podar, de cuidar de florir...
Há o tempo de aquietar e esperar;
Há o tempo de vendavais, que revoltam
Sacodem as folhas,
Derrubam e as levam,
Enquanto outras se acomodam aqui e ali...
Há tempo de escuridão (porque faz-se necessário...),
Para que a luz renasça e a empurre aos pouquinhos
E então ilumine tudo ao redor...
Há o tempo de encontrar-se;
Há o tempo do desencontro;
Mas há um tempo, antes de tudo, que é só nosso
Um tempo que o relógio não marca,
Tampouco a distância, ou a falta...
Um tempo que nem a vida nos rouba.
Há um tempo que é só nosso;
E este nos é tão caro
Que ninguém nos tira...
É o tempo de
renascer...
E fazer brotar, das raízes mais profundas ou sementes novas,
O Amor...
O tempo do Amor é único e tão verdadeiro que explica e
Justifica tantas esperas....
Este tempo não há como explicar...
É o tempo da vida...
Que escorre pelas veias e
Entranha-se no corpo, pensamento e alma...
E lá permanece...ao encontro do EU que surge
Único e resplandecente para uma nova vida,
Em um outro tempo.
Há tempo para tudo...


Zana Ol

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Estranha felicidade



Porque habitava em mim uma estranha alegria,
Absurdamente repentina e estranhamente volátil...
Contorcia-me em mim de tamanha sensação prazerosa e
Num leve suspiro esgueirava-se por entre risos e lábios entreabertos...

Que estranha felicidade que habitava meu peito antes inerte?
Sabes tu?
Sabes eu?
Tampouco há o que explicar...
Então adormece assim...
E num sopro acordo em mim...

Zana Ol

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Amarras



 Não  me prendas
Não sou dada a amarras

Não queira-me no limite
Do teu abraço
Não suporto fronteiras
Quero a céu, a terra e o mar
Quero abraço forte,
Poesia na mesa
Música na alma
Amor no coração
E desejo na cama

Não me limito
Ao querer
Meu Amor vai-se mundo afora
E leva-me, sem saber, embora

Então...
Sou barco velejante,
Desejo pulsante
Anjo sem asa
Sou alma andante

Não me prendas
Ao teu cansaço

Não me limite a ter-te
Ao meu lado
Pois o lado que te ofereço
Despenca na liberdade
Que não conheço, mas que busco
A todo momento, incansavelmente

Zana Ol


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A outra...



Porque pensava  ser ela sentada em frente ao espelho? Não....não reconhecia-a naquela pele, naqueles olhos opacos, cansados...Não! Decididamente não olhava para si. Aquela parada em frente ao espelho era uma mulher triste, trazia nos olhos uma  profunda melancolia que doía olhá-la. Quem era aquela figura tão triste à sua frente?Forçava um sorriso, mas seu sorriso  era carregado de uma alegria disfarçada...Não fitava-a nos olhos...desviava-os...Que figura soturna e melancólica apresentava-se diante de si.
Não, não era ela. Era qualquer outra pessoa..., talvez uma mãe que perdera o amor de seus filhos, uma esposa traída, uma mulher com seus desejos insatisfeitos...Não sabia...
Olhou-a com mais cuidado...até lembrava-lhe um pouquinho sim...será? Olhou com mais atenção...Viu a expressão no rosto daquela mulher quando sua filha foi-se embora e nunca mais voltou.Foi viver sua vida longe...muito longe. Sim reconhecia, também havia sentido algo assim...ainda sentia, doía lembrar...sim, tinham alguma coisa em comum.
Observou os olhos baixos e as mãos impacientes sobre o colo, percebeu uma lágrima que rolava até a boca...sim,  também já tinha se visto naquela situação quando achara uma mancha de batom na camisa do marido...havia engolido a lágrima que caíra e esfregou  com tanta força a camisa que chegou a brotar uma gota de sangue da mão direita. É, talvez identificasse aquela lágrima naquela mulher à sua frente.
Por um instante seus olhos se encontraram e ela pode perceber uma insatisfação...desejos não satisfeitos...
Ajeitou o cabelo, alisou a saia, puxou o decote deixando mostrar um pouco do colo ainda atraente.
Olhou atentamente para aquela mulher a sua frente e começou a perceber um pouco de beleza nela. Não era de todo feia. Ainda havia um certo frescor de uma juventude roubada pela vida mesquinha que levava...Sim, observou atentamente, levantou a mão e tocou-lhe o rosto. A pele era macia. Os lábios curvaram-se em um breve sorriso. Ficou bonita assim, com um sorriso no rosto. Desfez o coque e então, caiu-lhe por sobre os ombros os cabelos sedosos, escondidos por anos naquele horrível coque...
Então chegou mais perto e olhou mais profundamente nos olhos daquela mulher, sim...era um lampejo de desejo que correu no olhar rápido lançado sobre ela...Aquela mulher demostrou vontades...Estava viva, e já não mais parecia-lhe tão melancólica. Observou melhor e achou-a atraente. Pegou um batom na gaveta e ofereceu à ela...Sim...estava ficando bonita, encantadora.
Suspirou, levantou-se e olhou novamente para aquela mulher que também a observava. Balançou a cabeça...Como queria parecer-se com ela.
Sobressaltou-se...Estava na hora do almoço e ainda não tinha nem começado a fazê-lo. Rapidamente prendeu seus cabelos no horroroso coque, ajeitou o decote, limpou a boca e foi-se,  deixando ali aquela mulher encantadora que acabou de desvendar-se a sua frente.
Não olhou para trás...não tinha tempo...precisava fazer o almoço. Foi-se...
Zana Ol


Aprendiz



Ando a arder-me por dentro,
Fogo que consome meus pensamentos,
Entrelaça minha paz
E rompe em lamentos.

Ando a correr pensamentos
Que escapam porta a fora,
Saltam ali e mais adiante
Escorregam por entre os dedos.

Ando a passear
Pelo vale encantado
Dos sonhos impossíveis
Onde arqueio meus mais profundos desejos
Encarcerados neste mundo inacessível

Ando a andar...
Recolhendo desejos
Guardando sentimentos
Olhando-me por dentro

Ando assim...
Talvez encontre um jeito
De sair porta a fora
De mim
Largar a velha pele (já tão cansada)
E desvendar um outro mundo,
Um outro caminho,
E descobrir onde ficou
Perdida a tão encantada
Vida...
Ando assim...

Zana Ol


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Silêncio




Colocou lírios no cabelo
Sacudiu as mãos inquietas
Botou sorriso nos lábios
E foi ser poeta

Colheu pétalas de alegria
Folhas de esperança
Guardou sua tristeza no envelope
E soltou todas suas lembranças

Escreveu-se em rabiscos
Pintou-se colorida
Tirou o véu dos sonhos
E curou sua ferida

Versos tristes ou alegres?
Brincam todos na varanda
Pipocam no sonho alado
Que nem borboletas em ciranda

Estica a palavra no ouvido
E o silêncio estanca
Sacode a folha amassada
E que surpresa...está branca!

Roubaram-lhe
As palavras,
 Os versos,
A voz,
A vida.

Zana Ol





domingo, 10 de setembro de 2017

Encontro


E naquele dia, ela sentiu-se leve, transparente, subitamente serena.
Sabia que as amarras haviam sido retiradas e sentiu-se livre. Seus pensamentos corriam soltos pelos desejos contidos por tanto tempo. Suas vontades voaram por sobre suas angústias velhas e pousaram nos seus sonhos.
Era ela novamente e por um instante sentiu-se voar. Seu coração pulou do seu peito. Olhou ao seu redor e viu-se em meio a si mesma.
Queria tanto estar com ela mesma...e agora não conseguia descrever tamanha sensação. Não havia prazer igual. Uma lágrima rolou pelo seu rosto e outra e mais outra. Deixou-as cair como cascata pelo seu colo e se ajeitaram no chão aos seus pés. Eram cristais, diamantes, brilhantes...eram pura felicidade. Ria-se enquanto elas continuavam caindo de seus olhos.
Amou-se. Deixou o sol tocar-lhe os lábios molhados e sorriu. Os raios  brilharam sobre si. A brisa leve sacudiu seu cabelo solto. Ela estava ali. Sempre esteve. Escondeu-se por motivos alheios, escondeu-se por medo, por falta de coragem...Mas não se pode deixar a essência guardada por muito tempo. Porque se não a libertamos, ela nos mata. Mata-nos pela tristeza, pelo medo, pela falta do amor.
Esfregou os pés descalços na areia umedecida. Sabia que agora, nada mais a prendia ali, naquele mundo tão sem sentido. O que via a sua frente era o que não conseguia enxergar. Como roupa que não serve mais, deixou quem pensara ser ali e libertou-se. Um passo, depois outro, e outro ...então correu. Era urgente estar em si. À sua frente estava a vida, a sua vida. E ela queria vivê-la com toda intensidade que pulsava em suas veias e que fazia seu coração pular para fora do peito.
Não teve dúvidas. Agora sabia. A vida a esperava.  E sem olhar para trás continuou correndo para sua vida, para sua estrada, para ela mesma.

Zana Ol