quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Encontro...


Ando a procura,
procuro por mim...
em cada canto da vida
procuro por mim
em cada palavra dita
procuro por mim
em cada rua, beco, esquina

Não acho-me
escondeu-se  ...
não quer revelar-se
e deixa-me assim
a procurar

Não descanso,
entre um tropeço e outro
tento achar-me
não desisto...
seria insano

Corro de encontro
ao que possa ter um pouco de mim
debruço-me sobre fotografias,
filmes...
enganos,
roubaram-me o que fui

Então entre uma folha e outra,
uma palavra, um ponto e uma vírgula
leio-me,
decifro-me
e acalmo meu coração

Repouso a mão cansada,
os olhos molhados,
a boca emudecida,
e adormeço, finalmente sobre mim...

Zana Ol


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Plenitude


Quero tua liberdade em mim
Quero teus mais profundos pensamentos
Quero começo, meio e fim

Quero que te entranhes em meus pensamentos
quero todos teus momentos

Quero que queira-me
quero que anseies pelos meus
sonhos, devaneios e pela minha loucura
e que sejas um bálsamo e minha cura

Quero rasgar-me e
deixar-te entrar assim,
feito véu de água
em cascata por entre pedras
e...chegar lentamente no mais profundo
de mim.

Quero vasculhar teus caminhos,
teus silêncios,
teus medos.

Quero conhecer-te muito além de ti
embriagar-me com teus desejos
aninhar-me na doçura do teu
mais puro sentimento

Quero o teu gozo
satisfazendo minha ânsia

Dar-te-ei-me inteira, plena
para me guardares dentro de ti

Tua liberdade será minha
e juntos tocaremos
o mais nobre som e
falaremos a mais doce palavra:
Amor

Zana Ol




terça-feira, 27 de setembro de 2016

Esperança



Queria-lhe a voz
o toque
o tempo
a paixão

Queria-lhe o lume
da estrela
do olhar
do sonho

Queria-lhe  o pensamento
sem tormento
com alento

Por ai vai
Querendo-lhe sempre mais

Por aí vai deixando-se
ali,
aqui,
lá...

Queria  mesmo
tudo...
corpo, alma, mente

A vida, ingrata
deixou-lhe de lado
abandonado
desolado...

Içam-se as velas
avança-se ao mar
das ilusões ,
das paixões
das histórias dançantes

Coração insistente,
persistente
Não desiste
Acorda a esperança que lá existe

Então  sonolenta
A esperança acena, rouba a cena
e me tira pra dançar.

Zana Ol





quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Destino

       


       Naquele dia correu porta a fora. Tinha escutado a música. Tinha certeza. Ela vinha de algum lugar, lá fora.
      Sentiu a grama macia sob seus pés... Então parou. A música havia cessado. Ficou ali, sentindo um prazer... Dançou. Seus pés nus dançavam suavemente sob a relva úmida pelo orvalho.
      Tentou ouvir a música, mas já não a escutava. Olhou ao longe e descobriu uma árvore que nunca tinha visto. Caminhou descansadamente, não tinha pressa (as árvores não saem do lugar).
      Conforme se aproximava daquela árvore desconhecida, percebia que era muito grande,enorme. Olhou suas raízes, eram grossas e profundas. Mantinham-na inabalável. Uma fortaleza.
      Seus galhos pareciam não ter fim. Respirou fundo e sentiu um perfume suave e doce. Que estranho nunca ter percebido aquela enorme árvore.
      De onde vinha tal perfume? Não havia flor alguma. Resolveu subir em um galho e então descobriu a flor mais linda que poderia existir... Encontrava-se no galho mais alto da árvore.
      Era de um colorido intenso, grande, porém delicada. Dela exalava um delicioso perfume. Por alguns instantes ficou ali, encantada com o que via e sentia. Subiu mais ainda... Não conseguia alcançá-la. Então se sentou em um dos galhos e ficou a observar a encantadora flor.
      Recordações vieram em sua mente e então fechou os olhos e deixou-se ser levada pelas lembranças. Ouviu as risadas dos seus filhos brincando junto ao banco que ficava no jardim, enquanto regava o canteiro de margaridas. Ouviu o chinelo do seu pai, arrastando-se pela varanda enquanto pegava o jornal. Sentiu o cheiro do café que sua avó fazia, sempre que ia visitá-la. Ouviu o choro angustiante de sua mãe. Sentiu a tristeza dos corações que envolviam um  corpo estendido ao chão, debaixo de uma árvore.
      Lembrou-se de tantas coisas, mas não conseguia lembrar-se do rosto do corpo ainda jovem que se estendia sobre a grama úmida... Sentiu uma angústia enorme por não conseguir ver o rosto...  Sentiu uma dor profunda no peito. Faltou-lhe o ar. Abruptamente suas lembranças apagaram-se e visualizou a sua frente a flor que antes encontrava-se tão acima...era de um brilho que ofuscava seus olhos. Sentiu-se paralisada. Olhou ao redor, a árvore transformara-se em uma grande flor de luz. Sorriu. Nunca tinha sentido uma sensação tão boa. Então, aos poucos, foi percebendo-se luz também. Misturou-se com o cintilante das cores e tornou-se perfume...
      A bela flor do galho tão alto caiu sobre o corpo, que pensara estar somente em suas lembranças.... Pousou suavemente sobre o peito inerte. Por um momento todos ali, olharam para o céu e descobriram uma luz colorida a espalhar-se. Então sentiu-se um perfume a tomar conta do ar. A beleza que se viu foi tão tocante que por um momento as lágrimas cessaram e conseguiu-se ver nos olhos tristes um  lampejo de admiração e um sopro de alegria.
      Era assim então. Seu coração transformou-se em uma flor de luz e seguiu a enfeitar e perfumar os jardins infinitos. Foi o seu destino.

                                                                                                                           Zana Ol    

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Desejos




Peito arfante
mão estendida
alma aflita
desejo...

Corpo arrepiando
vento soprando
murmúrio...

Suspiros,
sussurros
boca procurando a tua
pele nua

Sonho
delírio
riso solto
satisfação

pensamento desfeito
insensatez

Olhos brilhantes
amantes
mãos entrecruzadas
unidas solenemente
olhos a espera
cegos as luzes

mergulhados em si
não há tempo,
não há hora
segue o destino

Dores agudas
suspiros vermelhos
imagens no espelho
segue a vida
abre-se a porta
partida...

Zana Ol






sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Estranha felicidade




      Sorriu largamente. Olhou ao seu redor e soltou um gemido de satisfação. Escancarou seu sorriso franco, faltavam-lhe alguns dentes, mas pouco isto importava-lhe, adorava sorrir. O que lhe faltava não fazia  a mínima diferença, o que realmente importava era sua  vontade de viver! – Na verdade nem ela sabia de onde vinha esta estranha sensação de plenitude que todos os dias pela manhã lhe saudava... Era estranho, mas era muito boa esta sensação(parecia ter borboletas passeando pelo céu da boca)!
      Certo dia sentou-se ao seu lado um lindo jovem (Viera de onde? Nunca soube). Ficou sentado durante um longo tempo, sem dizer uma única palavra... Não precisava. Suas presenças falavam por si. A beleza e juventude dele encantaram-lhe a alma. Então ele levantou-se, colheu uma flor que nascera no meio da calçada, e estendeu-lhe, tocando-lhe a mão. Por um momento ficou ali fitando aqueles olhos doces e brilhantes. Tinham  brilho de estrelas, os seus olhos. Enxergou-se  neles . Fitavam-na  tão francamente. Emudeceu. As palavras não se encaixavam naquele instante...O silêncio era encantador. Então por alguns momentos identificaram-se em   almas. O belo rapaz virou-se, sorriu-lhe e foi se afastando com passos que mais pareciam uma dança. Ela ficou a contemplar a bela imagem. Dobrou a esquina. Sumiu do seu olhar. Sacudiu a cabeça, colocou a flor no cabelo, ajeitou o vestido e seguiu o seu caminho.
      Não era fácil deixar as coisas belas irem embora assim, mas não havia como prender o momento. Era assim. A vida era assim.
      Baixou a cabeça e olhou para seus sapatos já gastos de tanto andar. Não havia reparado o quanto já tinha andado. Pelos  seus sapatos...já deveria ter percorrido muitos corações, muitos olhares e muitas histórias. Não contava o tempo, tampouco a distância. Simplesmente andava. Às vezes anjos faziam-lhe companhia e então carregava o mundo dentro de si, talvez por isso o seu peito enchia-se de uma alegria infinita. Alguns chamavam de felicidade. Ela apenas chamava de vida.
Zana Ol 

Poema Soturno



Acendeu-me assim
uma fagulha infinita
rompendo o obscuro pensar

Gargalhou-se de mim
a inquieta maldade
querendo ficar

Blasfemou o verbo
fazendo-me andar

Rimas vãs
prescindíveis  palavras

Acuada luz
querendo acender
a chama que se apaga
neste eterno morrer

Riu-se  a tristeza
da faúlha insistente
que socorre a vida
que vive  dentro da gente

Zana Ol