sábado, 12 de maio de 2018

Desencanto



Ela jogou o cabelo ao vento,
Rolou-se em si
Gargalhou em pensamento
E foi ser feliz

Atravessou a fronteira do sofrimento
Abriu a porta da alegria
Embalou seus sonhos de guria
E correu na manhã fria

Colheu sabores pendurados  nos dias
Dormiu em estrelas douradas
Deliciou-se na noite enluarada

Por um momento pensou ser ela encantada
Encanto quebrado no presente desenrolado
Na nudez clara do óbvio anunciado

Então mais uma vez,
Embrulhou-se no véu cintilante da noite
Pousou seus pensamento em  nuvens de algodão
E guardou seu amor, delicadamente
Dentro do seu coração.

Zana Ol

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Ausência




Então em um breve sopro
A vida rouba-lhe a felicidade
Traz a amarga tristeza
Que entranha-se na pele
Na carne,
Na alma.

Então em um breve sopro
A alegria vai embora
E deixa o vazio
Da ausência

Antes eras uma brisa suave
Hoje és trovoada, céu escuro.
Tormento

Então molho o rosto,
Choro
Pelo que poderias ter sido
E não foi
Pelo  que ansiava
E não aconteceu

Vida que estanca
No marchar lento
Da possibilidade ,
Da felicidade
Que não se consumou

Talvez ainda te sinta,
Assim como no começo,
Sim...
Fecho os olhos
E por um breve momento
Alcanço-te ,
E então sonho..

Zana Ol.


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Espera


O vestido velho não lhe servia mais,
Os olhos brilhantes, não pertenciam mais aquele olhar,
Os lábios infinitamente ávidos
Já não cabiam naquele rosto

A mão delicada
Já não sabia onde se colocar...
E os sonhos que habitavam
Seu sono  noturno
Não estavam mais lá

A voz mansa e suave
Calou-se
O gesto espontâneo
Estancou

Agora esperava a hora
Apenas esperava...
Pois há muito já se fora
Para longe de si

Então aquietou-se
E esperou...
Apenas esperou
Mansamente
A sua volta.

Zana Ol


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Tempo .





E há tempo para tudo
O tempo de podar, de cuidar de florir...
Há o tempo de aquietar e esperar;
Há o tempo de vendavais, que revoltam
Sacodem as folhas,
Derrubam e as levam,
Enquanto outras se acomodam aqui e ali...
Há tempo de escuridão (porque faz-se necessário...),
Para que a luz renasça e a empurre aos pouquinhos
E então ilumine tudo ao redor...
Há o tempo de encontrar-se;
Há o tempo do desencontro;
Mas há um tempo, antes de tudo, que é só nosso
Um tempo que o relógio não marca,
Tampouco a distância, ou a falta...
Um tempo que nem a vida nos rouba.
Há um tempo que é só nosso;
E este nos é tão caro
Que ninguém nos tira...
É o tempo de
renascer...
E fazer brotar, das raízes mais profundas ou sementes novas,
O Amor...
O tempo do Amor é único e tão verdadeiro que explica e
Justifica tantas esperas....
Este tempo não há como explicar...
É o tempo da vida...
Que escorre pelas veias e
Entranha-se no corpo, pensamento e alma...
E lá permanece...ao encontro do EU que surge
Único e resplandecente para uma nova vida,
Em um outro tempo.
Há tempo para tudo...


Zana Ol

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Estranha felicidade



Porque habitava em mim uma estranha alegria,
Absurdamente repentina e estranhamente volátil...
Contorcia-me em mim de tamanha sensação prazerosa e
Num leve suspiro esgueirava-se por entre risos e lábios entreabertos...

Que estranha felicidade que habitava meu peito antes inerte?
Sabes tu?
Sabes eu?
Tampouco há o que explicar...
Então adormece assim...
E num sopro acordo em mim...

Zana Ol

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Amarras



 Não  me prendas
Não sou dada a amarras

Não queira-me no limite
Do teu abraço
Não suporto fronteiras
Quero a céu, a terra e o mar
Quero abraço forte,
Poesia na mesa
Música na alma
Amor no coração
E desejo na cama

Não me limito
Ao querer
Meu Amor vai-se mundo afora
E leva-me, sem saber, embora

Então...
Sou barco velejante,
Desejo pulsante
Anjo sem asa
Sou alma andante

Não me prendas
Ao teu cansaço

Não me limite a ter-te
Ao meu lado
Pois o lado que te ofereço
Despenca na liberdade
Que não conheço, mas que busco
A todo momento, incansavelmente

Zana Ol


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A outra...



Porque pensava  ser ela sentada em frente ao espelho? Não....não reconhecia-a naquela pele, naqueles olhos opacos, cansados...Não! Decididamente não olhava para si. Aquela parada em frente ao espelho era uma mulher triste, trazia nos olhos uma  profunda melancolia que doía olhá-la. Quem era aquela figura tão triste à sua frente?Forçava um sorriso, mas seu sorriso  era carregado de uma alegria disfarçada...Não fitava-a nos olhos...desviava-os...Que figura soturna e melancólica apresentava-se diante de si.
Não, não era ela. Era qualquer outra pessoa..., talvez uma mãe que perdera o amor de seus filhos, uma esposa traída, uma mulher com seus desejos insatisfeitos...Não sabia...
Olhou-a com mais cuidado...até lembrava-lhe um pouquinho sim...será? Olhou com mais atenção...Viu a expressão no rosto daquela mulher quando sua filha foi-se embora e nunca mais voltou.Foi viver sua vida longe...muito longe. Sim reconhecia, também havia sentido algo assim...ainda sentia, doía lembrar...sim, tinham alguma coisa em comum.
Observou os olhos baixos e as mãos impacientes sobre o colo, percebeu uma lágrima que rolava até a boca...sim,  também já tinha se visto naquela situação quando achara uma mancha de batom na camisa do marido...havia engolido a lágrima que caíra e esfregou  com tanta força a camisa que chegou a brotar uma gota de sangue da mão direita. É, talvez identificasse aquela lágrima naquela mulher à sua frente.
Por um instante seus olhos se encontraram e ela pode perceber uma insatisfação...desejos não satisfeitos...
Ajeitou o cabelo, alisou a saia, puxou o decote deixando mostrar um pouco do colo ainda atraente.
Olhou atentamente para aquela mulher a sua frente e começou a perceber um pouco de beleza nela. Não era de todo feia. Ainda havia um certo frescor de uma juventude roubada pela vida mesquinha que levava...Sim, observou atentamente, levantou a mão e tocou-lhe o rosto. A pele era macia. Os lábios curvaram-se em um breve sorriso. Ficou bonita assim, com um sorriso no rosto. Desfez o coque e então, caiu-lhe por sobre os ombros os cabelos sedosos, escondidos por anos naquele horrível coque...
Então chegou mais perto e olhou mais profundamente nos olhos daquela mulher, sim...era um lampejo de desejo que correu no olhar rápido lançado sobre ela...Aquela mulher demostrou vontades...Estava viva, e já não mais parecia-lhe tão melancólica. Observou melhor e achou-a atraente. Pegou um batom na gaveta e ofereceu à ela...Sim...estava ficando bonita, encantadora.
Suspirou, levantou-se e olhou novamente para aquela mulher que também a observava. Balançou a cabeça...Como queria parecer-se com ela.
Sobressaltou-se...Estava na hora do almoço e ainda não tinha nem começado a fazê-lo. Rapidamente prendeu seus cabelos no horroroso coque, ajeitou o decote, limpou a boca e foi-se,  deixando ali aquela mulher encantadora que acabou de desvendar-se a sua frente.
Não olhou para trás...não tinha tempo...precisava fazer o almoço. Foi-se...
Zana Ol