segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Silêncio




Colocou lírios no cabelo
Sacudiu as mãos inquietas
Botou sorriso nos lábios
E foi ser poeta

Colheu pétalas de alegria
Folhas de esperança
Guardou sua tristeza no envelope
E soltou todas suas lembranças

Escreveu-se em rabiscos
Pintou-se colorida
Tirou o véu dos sonhos
E curou sua ferida

Versos tristes ou alegres?
Brincam todos na varanda
Pipocam no sonho alado
Que nem borboletas em ciranda

Estica a palavra no ouvido
E o silêncio estanca
Sacode a folha amassada
E que surpresa...está branca!

Roubaram-lhe
As palavras,
 Os versos,
A voz,
A vida.

Zana Ol





domingo, 10 de setembro de 2017

Encontro


E naquele dia, ela sentiu-se leve, transparente, subitamente serena.
Sabia que as amarras haviam sido retiradas e sentiu-se livre. Seus pensamentos corriam soltos pelos desejos contidos por tanto tempo. Suas vontades voaram por sobre suas angústias velhas e pousaram nos seus sonhos.
Era ela novamente e por um instante sentiu-se voar. Seu coração pulou do seu peito. Olhou ao seu redor e viu-se em meio a si mesma.
Queria tanto estar com ela mesma...e agora não conseguia descrever tamanha sensação. Não havia prazer igual. Uma lágrima rolou pelo seu rosto e outra e mais outra. Deixou-as cair como cascata pelo seu colo e se ajeitaram no chão aos seus pés. Eram cristais, diamantes, brilhantes...eram pura felicidade. Ria-se enquanto elas continuavam caindo de seus olhos.
Amou-se. Deixou o sol tocar-lhe os lábios molhados e sorriu. Os raios  brilharam sobre si. A brisa leve sacudiu seu cabelo solto. Ela estava ali. Sempre esteve. Escondeu-se por motivos alheios, escondeu-se por medo, por falta de coragem...Mas não se pode deixar a essência guardada por muito tempo. Porque se não a libertamos, ela nos mata. Mata-nos pela tristeza, pelo medo, pela falta do amor.
Esfregou os pés descalços na areia umedecida. Sabia que agora, nada mais a prendia ali, naquele mundo tão sem sentido. O que via a sua frente era o que não conseguia enxergar. Como roupa que não serve mais, deixou quem pensara ser ali e libertou-se. Um passo, depois outro, e outro ...então correu. Era urgente estar em si. À sua frente estava a vida, a sua vida. E ela queria vivê-la com toda intensidade que pulsava em suas veias e que fazia seu coração pular para fora do peito.
Não teve dúvidas. Agora sabia. A vida a esperava.  E sem olhar para trás continuou correndo para sua vida, para sua estrada, para ela mesma.

Zana Ol



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Intrusa



A tristeza roubou espaço
No meu coração
Trouxe o afago gelado
E o sussurro cortante

Acomodou-se
aconchegou-se
e não quer ir embora

trouxe com ela
olhos úmidos
um silêncio velado
e a vontade de não estar

Hoje a tristeza veio bater na porta
não pediu licença
entrou imponente
e não vai-se embora

Trouxe junto com ela
um punhado de saudades
e espantou para bem longe
qualquer resquício de felicidade.

Zana Ol


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Encontro...


Ando a procura,
procuro por mim...
em cada canto da vida
procuro por mim
em cada palavra dita
procuro por mim
em cada rua, beco, esquina

Não acho-me
escondeu-se  ...
não quer revelar-se
e deixa-me assim
a procurar

Não descanso,
entre um tropeço e outro
tento achar-me
não desisto...
seria insano

Corro de encontro
ao que possa ter um pouco de mim
debruço-me sobre fotografias,
filmes...
enganos,
roubaram-me o que fui

Então entre uma folha e outra,
uma palavra, um ponto e uma vírgula
leio-me,
decifro-me
e acalmo meu coração

Repouso a mão cansada,
os olhos molhados,
a boca emudecida,
e adormeço, finalmente sobre mim...

Zana Ol


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Plenitude


Quero tua liberdade em mim
Quero teus mais profundos pensamentos
Quero começo, meio e fim

Quero que te entranhes em meus pensamentos
quero todos teus momentos

Quero que queira-me
quero que anseies pelos meus
sonhos, devaneios e pela minha loucura
e que sejas um bálsamo e minha cura

Quero rasgar-me e
deixar-te entrar assim,
feito véu de água
em cascata por entre pedras
e...chegar lentamente no mais profundo
de mim.

Quero vasculhar teus caminhos,
teus silêncios,
teus medos.

Quero conhecer-te muito além de ti
embriagar-me com teus desejos
aninhar-me na doçura do teu
mais puro sentimento

Quero o teu gozo
satisfazendo minha ânsia

Dar-te-ei-me inteira, plena
para me guardares dentro de ti

Tua liberdade será minha
e juntos tocaremos
o mais nobre som e
falaremos a mais doce palavra:
Amor

Zana Ol




terça-feira, 27 de setembro de 2016

Esperança



Queria-lhe a voz
o toque
o tempo
a paixão

Queria-lhe o lume
da estrela
do olhar
do sonho

Queria-lhe  o pensamento
sem tormento
com alento

Por ai vai
Querendo-lhe sempre mais

Por aí vai deixando-se
ali,
aqui,
lá...

Queria  mesmo
tudo...
corpo, alma, mente

A vida, ingrata
deixou-lhe de lado
abandonado
desolado...

Içam-se as velas
avança-se ao mar
das ilusões ,
das paixões
das histórias dançantes

Coração insistente,
persistente
Não desiste
Acorda a esperança que lá existe

Então  sonolenta
A esperança acena, rouba a cena
e me tira pra dançar.

Zana Ol





quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Destino

       


       Naquele dia correu porta a fora. Tinha escutado a música. Tinha certeza. Ela vinha de algum lugar, lá fora.
      Sentiu a grama macia sob seus pés... Então parou. A música havia cessado. Ficou ali, sentindo um prazer... Dançou. Seus pés nus dançavam suavemente sob a relva úmida pelo orvalho.
      Tentou ouvir a música, mas já não a escutava. Olhou ao longe e descobriu uma árvore que nunca tinha visto. Caminhou descansadamente, não tinha pressa (as árvores não saem do lugar).
      Conforme se aproximava daquela árvore desconhecida, percebia que era muito grande,enorme. Olhou suas raízes, eram grossas e profundas. Mantinham-na inabalável. Uma fortaleza.
      Seus galhos pareciam não ter fim. Respirou fundo e sentiu um perfume suave e doce. Que estranho nunca ter percebido aquela enorme árvore.
      De onde vinha tal perfume? Não havia flor alguma. Resolveu subir em um galho e então descobriu a flor mais linda que poderia existir... Encontrava-se no galho mais alto da árvore.
      Era de um colorido intenso, grande, porém delicada. Dela exalava um delicioso perfume. Por alguns instantes ficou ali, encantada com o que via e sentia. Subiu mais ainda... Não conseguia alcançá-la. Então se sentou em um dos galhos e ficou a observar a encantadora flor.
      Recordações vieram em sua mente e então fechou os olhos e deixou-se ser levada pelas lembranças. Ouviu as risadas dos seus filhos brincando junto ao banco que ficava no jardim, enquanto regava o canteiro de margaridas. Ouviu o chinelo do seu pai, arrastando-se pela varanda enquanto pegava o jornal. Sentiu o cheiro do café que sua avó fazia, sempre que ia visitá-la. Ouviu o choro angustiante de sua mãe. Sentiu a tristeza dos corações que envolviam um  corpo estendido ao chão, debaixo de uma árvore.
      Lembrou-se de tantas coisas, mas não conseguia lembrar-se do rosto do corpo ainda jovem que se estendia sobre a grama úmida... Sentiu uma angústia enorme por não conseguir ver o rosto...  Sentiu uma dor profunda no peito. Faltou-lhe o ar. Abruptamente suas lembranças apagaram-se e visualizou a sua frente a flor que antes encontrava-se tão acima...era de um brilho que ofuscava seus olhos. Sentiu-se paralisada. Olhou ao redor, a árvore transformara-se em uma grande flor de luz. Sorriu. Nunca tinha sentido uma sensação tão boa. Então, aos poucos, foi percebendo-se luz também. Misturou-se com o cintilante das cores e tornou-se perfume...
      A bela flor do galho tão alto caiu sobre o corpo, que pensara estar somente em suas lembranças.... Pousou suavemente sobre o peito inerte. Por um momento todos ali, olharam para o céu e descobriram uma luz colorida a espalhar-se. Então sentiu-se um perfume a tomar conta do ar. A beleza que se viu foi tão tocante que por um momento as lágrimas cessaram e conseguiu-se ver nos olhos tristes um  lampejo de admiração e um sopro de alegria.
      Era assim então. Seu coração transformou-se em uma flor de luz e seguiu a enfeitar e perfumar os jardins infinitos. Foi o seu destino.

                                                                                                                           Zana Ol